sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

Fim de mim: caco de telha, batente, lepra

Tudo que tem começo tem também um fim
Hoje sinto que estou no FIM DE MIM
Estranha essa sensação, esse sentimento
Uma amiga me disse hoje: “sentada no batente posso continuar a apanhar meu caco de telha”
Não restou muita coisa, como ela bem disse: só os cacos. Como telhas velhas caindo do telhado e quebrando-se quando em contato com o chão. Falamos também de lepra, aquela que fere e rasga a alma fazendo-a sangrar um sangue que não estanca.
Certa vez, quando criança, fui com minha mãe, irmão e uma amiga a um hospital de leprosos. Eu deveria ter uns 10 anos. Nunca vou me esquecer daqueles rostos. Um em especial me chamou a atenção. O nome dele era Amaro. Não tinha pêlos no corpo. Os olhos de um leproso são hipnotizantes, dá pra sentir a dor através deles. Ele tinha um violão e, com os dedos feridos, assim mesmo tocava uma canção que não eu conhecia. Sentei-me ao lado dele e começamos a conversar. Não lembro quase nada da conversa, mas lembro que ele contava muitas piadas. Depois descobri que era a ele que tínhamos ido visitar (era o amigo da minha mãe e de sua amiga).
Fiquei me perguntando por que Deus permitia aquela doença. Era feia. Fiquei triste com esse pensamento. Naquela idade não entendia doença, tampouco os desígnios de Deus. Era apenas uma criança tendo dó de um homem preso àquelas feridas todas.
Ele desistiu. Foi embora. Chegou ao fim de si. Ele desistiu.
Olho para mim, sentada no batente que minha amiga mencionou. Estou de fato sentada usando os cacos de telha para aliviar a dor. Mas ao mesmo tempo, esses cacos aprofundam ainda mais as feridas. Mas não tenho o que fazer, os casos são os restos de mim que vão caindo, se deteriorando. Tento repô-los. Não consigo. Os dedos feridos impedem.
A confusão me toma, a inquietude vem. Só queria descansar. Fechar os olhos e sentir a dor ir passando, mesmo que eu não esteja mais acordada.
Não posso comparar minhas feridas com as dele. As dele se viam e doíam de fato. As minhas, só eu as vejo, só eu as sinto. E vou passando imperceptível pelas pessoas, sorrindo o sorriso ensaiado. Levando comigo, escondido, meu cacos de telha, meu batente e minha lepra.

9 comentários:

  1. A vida é cheia de etapas, ciclos. Inicio e fim. Hoje essa é minha etapa. O fim dela? Não sei qual será. Mas luto contra minha própria alma, contra a natureza humana que há em mim. Anseio reencontrar aquela velha Luiza, cheia de sorrisos, piadas e que nunca deixava ninguém quieto. Sempre rompendo o silêncio com suas risadas enquanto todos oravam naquela velha igreja em Bebebibe. Sinto falta dela. Mas ela se perdeu. Sinto que tenho que construir outra pessoa. Do nada que me restou. Mas sinto-me fraca. Sei que tudo passa. As dores que já enfrentei jamais imaginei vencer. Venci. Mas perdi minhas armas naquele combate.As armaduras foram rompidas. A espada desembanhada ficou no meio dos derrotados. A luta que enfrento hoje é maior que o meu consciente. Só você sabe dela. Você sabe das minhas batalhas e me viu vencer algumas. Mas essa, olho para trás e não avisto o meu exército. Apenas a voz de Deus dizendo para ir em frente que Ele me guarda.

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  2. Como conversamos hoje, você está certa. É preciso substituir a arma, a armadura e seguir. Mesmo sem exercito. Mesmo sem força. E se preciso for morrer em combate, que assim seja, mas isso acontecerá comigo enfrentando meus adversários (medos, fantasmas, lepras). Vencer? Não é sempre e nem para todos. Mas cabe a mim lutar.
    Te amo

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  3. Corrigido, pois é o que dar escrever nas pressas e no trabalho, porém inevitável calar diante de um texto tão forte...


    Ficou um belo conto a narração da conversa.
    Extraí este fragmento:
    "As minhas, só eu as vejo, só eu as sinto. E vou passando imperceptível pelas pessoas, sorrindo o sorriso ensaiado. Levando comigo, escondido, meu cacos de telha, meu batente e minha lepra"...

    Acredito que não há necessidade de fazer comparações e que uma alma leprosa sofre tanto ao se ver desfigurar. Mas, de fato, o que de belo Jó ensinou é como conviver com essa enfermidade, é saber aceitar a infelicidade como aceitamos a felicidade: vivendo-a, sobrevivendo com ela.

    A postura de sentar no batente com o caco de telha retirando a carne morta e podre, apesar da muita dor, me remete a dureza de ter que enfrentar o que de pior fica: o FEIO e o FEDIDO.

    Há nobreza em "saber" sofrer sofrendo. Esse homem, do qual a humanidade o chama de paciente, foi um homem que viu tudo se perder rapidamente e depois tudo ficou lento, ele nem iamginara que depois da tempestade viria a brisa, o consolo, ele nem pensava soubera que Deus lhe daria tudo outra vez e em dobro, somos nós que sabemos isto hoje e muitas vezes tratamos o sofrimento como algo q futuramente nos virá como vitória. Talvez nem seja.
    Jó ensinou que não adianta esperar o depois, não existe depois além do agora e agoras...


    Realmente é necessário sentar nobremente, procurar um caco de telha e amenizar a dor, tirando o que está podre e fedido, mesmo que fique feio ou perdendo pedaços de si... Lembro que quando li, como ele, a morte foi o clamor necessário para o alívio daquele estigma, mas veio cura... Repenso que poucas vezes temos a coragem de gritar como Bartimeu e pedir cura, acho que só fazemos isso no auge da cegueira, quando a lepra atinge nossos olhos espirituais. A partir de então o desespero vem... Somos humanos, seres miseráveis e belos e amados, mas descrente que por de trás há algo muito maior que sopra sobre nós e que no momento certo agirá.


    Enfim, Jós me ensinou que "se de Deus (este algo MAIOR que nós, misteriosamente SAGRADO) aceitamos a felicidade porque não aceitar a infelicidade?".

    SOBREVIVER é muito mais que VIVER, eis uma verdade que a VIda me ensinou.

    "Torno-me Náufrago em diversos momentos e sei que são nesses instantes que me refaço e me re-encontro... as redes se rasgam, o barco padece, os braços cansam, os remos se perdem, caio, nado, engulo água, resgato um dos remos perdidos, e luto, luto e luto.
    Desbravo em outras terras, contudo S O B R E VIVO.
    Sou perscador e náufrago em mim".

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  4. Eu te amo!

    Você, será sempre Luiza.
    Luiza de mil faces.
    Luiza de beleza sem igual.
    Luiza de Beberibe-Recife-PE.
    Luiza de Brasis.
    Luiza que sangra e sorri.
    Luiza, essa é a sua melhor arma, ser-TE! Seja
    Luiza...

    Lispector soprou sobre Ângela e o Pessoa sobre Àlvaro de Campos, Ricardo Reis...
    Por que não podes nascer-te em outra Luiza?
    "Luiza que se refaz"..

    Que o SAGRADO esteja sempre contigo!
    beijos

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  5. Que lindo.
    Só posso, em troca, tentar me refazer. A fênix.
    Mas não quero me refazer das sobras. Quero me refazer dos meus sonhos, os mais bonitos e coloridos. Aqueles que guardei e cujas folhas amarelaram-se, empoeiraram-se.
    Vai passar não vai?

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  6. Claro que vai.
    E serás uma linda Fênix..

    Sempre Luiza de Deus!

    Luiza renascida
    Luiza que outrora estava perdida
    Luiza jamais esquecida
    Luiza pra sempre erguida

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  7. Forte .. muito forte o texto. Tente olhar o passado como uma página virada e se tiver que reler alguma parte .. e voltar .. esteja aliviada e certa que você é dona da sua razão e coração, este sempre acha um jeito de nos surpreender ... mas fazem essa Luiza ... que precisa entender que é iluminada. Um grande beijo.

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