Não vou te dar a eternidade de mim
Nem roubar-te o que já te dei de ti
Não quero tuas mãos dada às minhas, presas e pregadas
Tampouco teus pés usando as formas dos meus
Não precisa seguir o meu horizonte, segue tua verticalidade
Apenas peço-te que deixes ao menos minha sombra, se é que é minha
E mantenha-se nela em silêncio puro e contínuo, obediente
Refugiarei-me das lembranças que um dia foi
No verso de mim ainda há as marcas e contornos teus
Braços e pernas e troncos e pensamentos misturados e dispersos
Eternizamo-nos no porvir de um sonho que não será
Emaranhando meus eus com os teus, ainda somos
E o espelho ainda embaçado guarda a imagem de quem somos de fato
Ali, mudos, estáticos, inertes, frios, distantes...
E vai aos poucos registrando o furor do tempo
Eu na minha horizontalidade, você na sua verticalidade
Eu saindo de mim para ser em ti, em passos lentos e retos
Mas ainda em direcções opostas